sexta-feira, 30 de julho de 2010
ROCIO
E a cidade serena no sereno do rocio chuviscante.
Na prata fosca da serrania ali defronte,só vê-se nébula - e antevê-se os malassombros úmidos de bruxas luéticas na madrugada de hoje,pinçados das estórias que Dona Maria Preta,mãe da peralta Nanã,contava com olhos arregalados e cavernosa voz.
A mesma voz roufenha e os mesmos olhos esbugalhados com que Sá Joana espreitava da brecha inferior de uma janela do tempo do ronca os "moleques do diacho" de plantão,prestes a atazaná-la se não fosse a chaleira com água fumegante ali do lado.
Sob o feiticeiro chuviscar itapetinense,recordações nostálgicas. O apuro antigo no vestir,na roupa branca engomada,recendendo a anil e à limpeza. A moringa posta ao relento das alvas para resfriar o líquido sagrado. Os pregões escandalosos de Dasdores Doida. A misteriosa música ao longe das Cirôs...
No turbilhão da memória,na vibração sutil das lembranças,na alma brunida das manhãzinhas,não busco certezas plenas,mas tenho plena certeza que ITAPETIM é para sempre!
A LÍVIDA TEZ DESTA SEXTA-FEIRA
Chove sobre ITAPETIM. Chove sobre os itapetinenses. Mesmo que estejamos enjaulados entre quatro paredes. Há chuvas que chovem de fora para dentro. Há outras que chovem de dentro para fora.
ITAPETIM dói nessa saudade adicional. A chuva não lava a saudade antiga. Apenas amplia a névoa da nostalgia...
Nada está entretanto irremediavelmente perdido. Somente os verdadeiros paraísos são os paraísos que se perderam,lembra MARCEL PROUST.
Chove em ITAPETIM. Chove muito em muitas cidades do Brasil. Chove dentro das pessoas de ITAPETIM. Chove dentro de muitas pessoas que habitam muitas cidades do mundo.
Você olha e não vê o horizonte. O horizonte está todavia em Você. Convém fixá-lo com o apuro de quem escreve uma carta de amor ou compõe um verso definitivo.
Há expectativa em torno da noite que chegará compulsoriamente,esteja ou não chovendo. E no bojo da noite muitas coisas acontecem. Inclusive a paz.
DEUS inventou as noites que se armam de sonhos,diria JORGE LUIS BORGES...
quinta-feira, 29 de julho de 2010
PARA JOÃO DE SOUSA LIMA: O PERITO EM CANGAÇO
Agradeço tua gentileza de seguir o nosso Café da Manhã de ITAPETIM.
Li sua matéria e vi a foto de Dadá de Corisco numa postagem do seu recanto sertanejo - ela,que era muito amiga de Jorge Amado - e me lembrei que no livro "A Casa do Rio Vermelho",de Zélia Gattai,a viúva do cangaceiro revela o seguinte ao casal de escritores: "Nunca permiti que enterrassem o corpo de Corisco. Um corpo deve ser enterrado inteiro,com cabeça. Espero que um dia apareça um governador que se dê conta desse horror e libere as cabeças. Quando isso acontecer,eu vou fazer o enterro",disse ela,indicando um baú de flandres onde estava a ossada de seu companheiro de bravuras,debaixo de sua cama.
Jorge e Zélia contribuíram para a compra do ataúde. "Quero um caixão decente",exigiu a ex-cangaceira já bem idosa,no que foi prontamente atendida quando,finalmente,sepultou-o íntegro.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
UNIVERSO ITAPETINENSE
Carimbambas na difusora primeva de Dona Gesumira Venceslau se me vêm...
E me pego a matutar que acho ITAPETIM um mundo que sabe acariciar até os corpos magros dos mandacarús.
Aqui povoam uma miríade de duendes pela Serra do Cruzeiro,espreitando ora o verde bravo,ora o cinza ardente no carrasquento chão; aqui povoa também,com muito mais força,a retumbante imaginação!
Itapetim é fértil até na seca,porque o que resiste além dos facheiros,xique-xiques,coroas-de-frade,palmatórias,rabos-de-raposa,marmeleiros,mucunãs,é a poesia com seus rubis cintilantes,brotando perene feito um caçuá de rimas!
terça-feira, 27 de julho de 2010
...E LÁ VINHA ALICE
E lá vinha Alice,chapelão de palha,indispensáveis contas de madeira na mão,com o sol ainda não bem verde na Serra do Cruzeiro: ela era a mais nova aquisição itapetinense do pitoresco,porque nossa cidade tem vocação para agregar seres humanos insólitos na sua maneira de agir.
Alice foi com a minha cara e não poderia dispensar de dar-lhe um abraço logo ela despontava na manhã mal raiada e me localizava.
De onde viria Alice? Não importa. Chegara para instalar-se na terrinha e para laurear nossa história na galeria de gente diferente.
Para onde foi Alice?
E lá vem o dia a nascer flutuando docemente na Terra de Poeta,onde os perfumes de outrora não se dissipam no presente. Nossa ITAPETIM que,atualmente,mais parece uma Suíça sertaneja de tão friorenta.
Não sei ser outra coisa senão sertanejo,tanto com brasa ou gelo,admito nesta manhãzinha. É um orgulho bárbaro. Amo as horas rubras de ITAPETIM,mas se os gélidos cinzas surgirem,hei de amá-la eternamente ainda assim.
Do meu canto obscuro,da aurora aonde estou agora,fico esperando que a lua se vista de seda pura para melhor meditar tão grande amor!
segunda-feira, 26 de julho de 2010
NOSSO VENERANDO RIO
Semoventes águas do Pajeú...
A vida é como esse rio: celeridade de instantes,átimos de correntes fluídicas.
Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas.
Manuel Bandeira
Localidade: Sitio Pimenteira,propriedade do Sr. Luiz Herculano a 8Km,aproximadamente,da cidade de Brejinho,indo pela BR 110,entrando depois da ponte de Placa da Piedade,passando pelo distrito de Piedade,em direção Leste da Cidade de Poeta. Da residência do Sr. Luiz Herculano à nascente do rio,o percurso é de 2 km e tem dois açudes.
O local onde o rio nasce,tem aparência de um pequeno riacho,que juntando a outros riachos,um pouco abaixo dos citados açudes,formam o leito do rio que desce em direção à nossa urbe.
No Nordeste,pajeú é grande faca longa e estreita,de ponta fina e cabo de chifre em forma de anéis da cor branca e preta,também chamada pajeuzeira,bem como faca de ponta lambedeira.
Segundo pesquisa do itapetinense Professor Dr. Marcos Roberto Nunes da Costa,em seu livro ITAPETIM: CIDADE DAS PEDRAS SOLTAS,"seu nome está ligado às velhas tribos indígenas dos Cariris,que habitavam estas terras. Para eles,o rio era tido como sagrado,templo dos deuses,ao qual só os feiticeiros tinham acesso. Os indígenas chamavam-no de 'Rio dos Feiticeiros' ou 'Rio Pajahu',que vem da palavra 'paia',que,em língua cariri,significa 'curandeiro ou feiticeiro'. Mais tarde,na transcrição da língua oral cariri para a 'língua branca' passaria a 'Pajeú'."
sábado, 24 de julho de 2010
O REFLEXO E A REFLEXÃO

Tudo aquilo me impressionou. E passei a prestar mais atenção nas coisas. Não estava mais tranqüilo. Prestar atenção nas coisas pode ser uma forma de intranqüilidade.
Procurei descobrir de onde vinha aquele reflexo dourado. Fiquei feliz,embora levemente preocupado com a origem das coisas.
Somente o dourado,com seu pequeno impacto sobre a cruz,me induziu a indagações. Mudei de posição,olhei em diagonal e o reflexo dourado continuava com a precisão dos fatos consumados.
Jamais saberei a verdade das coisas...
...Mas o reflexo dourado vinha do Divino Amor!
sexta-feira, 23 de julho de 2010
POETIVIVENDO
2. Amo ITAPETIM na seqüência infinita entre a aurora e o fim do dia,e muito mais nas madrugadas onde se pode ver o dulçor estelar e ímpar.
3. O cheiro do marmeleiro é tão sutil quanto harmonioso!
4. Passo sempre alguma vez defronte à casa velha de seu José Valdevino e até posso ouvir a balada sonâmbula dos sinos a bimbalhar que ela não tombe,já que ninguém a tomba.
5. O nosso Blogsite Itapetim continuará fecundo em agregação,pois somos arautos da concórdia.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
REPUBLICAÇÃO DE UM ARTIGO DE LUSA PIANCÓ VILAR
Itapetim não se esquece do romantismo alimentado pelas belíssimas serenatas de Franco,Pedrinho Rêgo,Valdir e Vivaldo de Zé Gongô,Zezé de Delfino e outros que arrebentavam corações apaixonados ao som de violões,cavaquinhos e canções dos enamorados que,favorecidos pela penumbra da luz da lua,filtrada pelas nuvens,pairavam nos céus da nossa terra e lhes davam a devida inspiração.
Itapetim agradece aos prefeitos anteriores ao “DIA DA LUZ”,que mantinha a cidade iluminada das 6 da tarde até as dez da noite através do “motor da luz” de Seu Antônio Preto e do seu filho Inaldo,propiciando,além de outras coisas,a implantação de cursos noturnos que muito favoreceram pessoas que trabalhavam durante o dia,portanto só poderiam estudar à noite.
Todavia,Itapetim precisava - sem perder seu romantismo e sua alma poética -,trazer a energia de Paulo Afonso como uma ação impactante para garantir o seu futuro desenvolvimento socioeconômico.
Há quarenta e cinco anos atrás muitos itapetinenses eram crianças,outros ainda não tinham nascido e hoje muitos já não estão mais entre nós.
O DIA DA LUZ já não é um passado tão recente,por isto sinto a necessidade de delinear uma breve panorâmica do cenário político pernambucano do século XX,a fim de situar os mais jovens no contexto deste fato memorável realizado no dia 17 de setembro de 1965.
Eu tinha apenas 17 anos,professoranda do curso pedagógico do Colégio Normal de São José do Egito,meu saudoso pai era o Prefeito de Itapetim,dele recebi a responsabilidade de representar a juventude da minha terra,naquele momento histórico,e fazer o discurso de saudação à caravana governamental que iria acionar a chave de ligação da luz de Paulo Afonso.
O tempo não pára,como diz a canção de Cazuza. Parece que foi ontem,mas na verdade foi no século passado; como costuma citar o Senador Marco Maciel,somos passageiros de um século como também somos passageiros de um milênio,pois já estamos no 3º milênio da Era Cristã.
Em 1964,mais precisamente no dia 1º de abril,portanto no ano anterior ao DIA DA LUZ, o Congresso Nacional declarou vaga a Presidência da República e no dia 20 do mesmo mês assumiu o General Humberto de Alencar Castelo Branco.
O Ato Institucional nº1 (AI-1),cassou mandatos,suspendeu a imunidade parlamentar e direitos políticos.
No nosso Estado,o Governador Miguel Arraes de Alencar foi deposto,e assumia em seu lugar o Vice-Governador Paulo Pessoa Guerra.
Na Assembléia Legislativa,o maior líder político interiorano,representante da Região do Pajeú,era Walfredo Paulino de Siqueira,um matuto inteligente que só tinha o curso primário,mas nos deu a honra de ocupar por 17 vezes a cadeira de Governador, deixando para nós pajeuzeiros o orgulho de termos tido no cenário político do Estado um homem da sua envergadura.
Na prefeitura de Itapetim,Antônio Piancó Sobrinho que além de sócio era,sim,o amigo fiel de Walfredo,fato que ainda hoje muito nos honra.
Vivíamos as agruras do Golpe Militar,mas estávamos comandados pelas duas instâncias do poder por matutos que tiveram seus votos legitimados pelo povo,sendo o Governador Paulo Guerra o último daquele ciclo que chegou ao poder pelo voto direto na aliança que compora com o Governador Miguel Arraes.
Tínhamos um governador que costumava dizer em seus discursos: “Eu só tenho medo de ter medo”; “Cheguei ao Governo pelo cheiro da pólvora e se um dia tiver que voltar gostaria de voltar com cheiro de povo.”
Esses homens,representantes do povo da nossa terra,vivenciaram a ditadura igualmente nós cidadãos que,desafortunadamente,víamos a nossa liberdade de expressão,nossos direitos e garantias constitucionais cerceados pelo golpe militar de 1964.
Foi nesse ambiente conturbado no cenário político nacional que O DIA DA LUZ chegou para os itapetinenses.
Enquanto nós acendíamos a luz em Itapetim,o país entrava no apagão da liberdade,pessoas amargavam a escuridão das celas das prisões,pessoas eram espancadas até a morte e nunca mais veriam o clarão da lua,nem o clarão do sol e muito menos o clarão das luzes que se acendiam pelo interior a fora,pois,além de Itapetim,166 localidades foram contempladas com eletrificação,tendo sido investido Cr$ 15 bilhões para o cumprimento dessa meta que o Governador tinha como prioritária.
Esse dia chegou para nós porque a vontade política desse tripé governamental: Paulo Guerra,Walfredo Siqueira e Antônio Piancó,em instâncias de poderes diferentes,alinhados politicamente com o maior chefe da História Política de Itapetim,o Cônego João Leite de Andrade e outros grandes homens políticos de Itapetim,tinham em suas metas o objetivo maior de fazer crescer e se desenvolver o Estado,a Região e o Município.
A luz em Itapetim se acendia ignorando as trevas em que o país havia mergulhado e ignorando o silêncio,imposto pelas regras da ditadura,o povo gritava em praça pública extravasando a sua alegria.
No palanque,o Governador Paulo Guerra,o Prefeito Antônio Piancó e,entre outras autoridades,o saudoso médico Dr. José Arlindo Leite Lopes,o Deputado Estadual Francisco Leite Perazzo e o Secretário do Governo Municipal Carlézio Monteiro de Medeiros,olhavam a multidão que se aglomerava para assistir ao espetáculo da claridade das lâmpadas ornamentais que haviam sido colocadas na Igreja Matriz para serem acesas pela mão do governador.
O DIA DA LUZ chegou regado a coquetel na residência do Prefeito Antônio Piancó; a população veio à praça pública aplaudir aquele momento de glória; o palanque foi armado para os discursos das autoridades; os fogos espraiavam-se nos céus em agradecimento a Deus e aos governantes por aquela conquista.
Podemos dizer que a Chesf,que acaba de completar 65 anos,é produto do esforço da união brasileira pela eletrificação do Nordeste. Podemos igualmente dizer que para Itapetim,ela é produto da união das forças do Governador Paulo Guerra no âmbito estadual e do Prefeito Antônio Piancó Sobrinho no âmbito municipal.
Enfim,não podemos esquecer que só foi possível o DIA DA LUZ para todos nós,porque um cidadão,pernambucano de nascimento,chamado Apolônio Sales,idealizou a Chesf,após a iniciativa de Delmiro Gouveia de fazer o primeiro aproveitamento da cachoeira com a Usina de Angiquinho implantada no alto de uma rocha de difícil acesso,de posição quase inacessível. Então,por causa disto surgiu a Chesf,criada pelo Decreto-Lei nº 8.031,de 03 de outubro de 1945.
Apolônio Salles presidiu a Chesf por doze anos e foi o responsável pela construção da Hidrelétrica de Paulo Afonso, com capacidade instalada de 180megawatts.
A hidrelétrica de maior significado para nós é a de Itaparica,pois está alojada em território pernambucano,com capacidade para gerar 1.500 megawatts,e foi batizada com o nome de Luiz Gonzaga o Rei do Baião.
Somos um povo rico de feitos memoráveis. Fazendo memória desses homens que acabo de reverenciar e que já não estão mais entre nós,só poderemos desejar que em troca das luzes que nos deram,recebam na eternidade a LUZ DE DEUS,como recompensa pelo saldo positivo de suas ações aqui na terra.
1. Discurso do Senador Marco Maciel – Plenário do Senado Federal
2. Perfil Parlamentar Século XX – Convênio firmado entre a Assembléia Legislativa do Estado de Pernambuco e a Fundação Gilberto Freyre.
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