quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

REPUBLICAÇÃO DE ARTIGO DO DR. SAULO PASSOS


Originalmente publicado no Jornal do Commercio no dia 28 de janeiro de 2008:

DE SAULO PARA SAULO

"O Código da vida,livro escrito pelo dr. Saulo Ramos,tem sido um sucesso nacional. Primeiro por ser ele um profissional conhecido,chegou inclusive a ministro da Justiça do presidente José Sarney. Depois,pela abordagem cultural e histórica,especialmente dos bastidores da política brasileira,passando pela elaboração da Carta Magna de 1988,pelo STF e até pelos cantadores de viola nordestinos.

O eminente advogado nos narra uma causa de direito de família da qual foi patrono,anteriormente rejeitada por outros causídicos,em razão de ser incisiva a evidência das provas contra o seu cliente,que o deixariam em posição desconfortável perante a acusação. O dr. Saulo Ramos,no entanto,acreditou no seu constituinte e abraçou a causa. Essa narrativa é a espinha dorsal do livro.

Curiosamente,os casos que a interrompem não são tão secundários assim. Estratégia muito inteligente do autor para prender a atenção do leitor e contar,sem ser maçante,aquilo que se pretende expor: os fatos que ocorreram em sua vida política,profissional,pessoal e de lazer. O epílogo é surpreendente e emociona. É,acima de tudo,uma aula de direito,de amor,de ética e de justiça.

Mas voltando às narrativas que circundam a principal,particularmente àquelas que discorrem sobre a poesia do repente*,quero dizer da minha admiração,pois isso já era do meu conhecimento,pelo interesse e gosto que o dr. Saulo Ramos,paulista de Brodowsky,tinha e tem pela cantoria de viola dos nossos repentistas,não obstante ter nascido tão longe do Nordeste.

O paraibano Severino Lourenço da Silva Pinto,"Pinto do Monteiro",realmente o maior repentista de todos os tempos - isso é consenso entre os apologistas e cantadores - foi insuperável no estilo,todavia poderia ter recebido maior deferência e cuidados por parte do revisor,em especial no tocante aos versos quebrados (pág. 322),uma vez que o próprio dr. Saulo já desclassificou um cantador de viola num congresso de violeiros por faltar com a métrica (pág. 319). Portanto,ele,mais do que ninguém,sabe o valor da métrica no verso do repentista. Mesmo assim,Pinto foi contemplado no 'Código da vida' apenas com uma magra página,quando deveria ter ganho umas dez. Antonio Pereira,este sim,foi mais uma vez injustiçado. Este pernambucano,já falecido,homem das mãos grossas,analfabeto,lá do sítio Juá,em Itapetim,escolhido pela natureza para decantar a saudade,era conhecido como o Poeta da Saudade. Era respeitado neste tema por todos os poetas nordestinos,mas ignorado por aqueles que não se dão ao trabalho de fazer uma pesquisa mais apurada sobre a sua produção poética.

Esta mesma barbaridade já foi cometida por um matutino,que disse ser de um nativo do Acre um poema de autoria de Antonio Pereira. Refiro-me à sextilha 'Saudade', publicada no 'Código da vida' (pág.102),desta vez como sendo de autoria do paraibano Eurícledes Formiga: "Saudade é um parafuso/Que quando na rosca cai/Só entra se for 'trocendo'/ Porque batendo não vai/Depois de enferrujar dentro/ Nem 'distrocendo' não sai." Era assim que o autor a declamava. Dele,incluindo esta,são 30 sextilhas sobre saudade que constam do meu acervo pessoal. É justo,portanto,que se corrija o engano. Se o parafuso é ínfimo,caro jurista Saulo Ramos,para nós,nordestinos,defensores da poesia popular,a exteriorização da saudade,fruto da dor desse poeta,tem um valor incomensurável. A César o que é de César.




*REPENTE

Batalha verbal no ritmo das violas

Por: Silvio Essinger

"No Brasil,a tradição medieval ibérica dos trovadores deu origem aos cantadores – ou seja, poetas populares que vão de região em região,com a viola nas costas,para cantar os seus versos. Eles apareceram nas formas da trova gaúcha,do calango (Minas Gerais),do cururu (São Paulo),do samba de roda (Rio de Janeiro) e do repente nordestino. Ao contrário dos outros,este último se caracteriza pelo improviso – os cantadores fazem os versos 'de repente',em um desafio com outro cantador. Não importa a beleza da voz ou a afinação – o que vale é o ritmo e a agilidade mental que permita encurralar o oponente apenas com a força do discurso.

A métrica do repente varia,bem como a organização dos versos: temos a sextilha (estrofes de seis versos,em que o primeiro rima com o terceiro e o quinto,o segundo rima com o quarto e o sexto),a septilha (sete versos,em que o primeiro e o terceiro são livres,o segundo rima com o quarto e o sétimo e o quinto rima com o sexto) e variações mais complexas como o martelo,o martelo alagoano,o galope beira-mar e tantas outras. O instrumental desses improvisos cantados também varia: daí que o gênero pode ser subdividido em embolada (na qual o cantador toca pandeiro ou ganzá),o aboio (apenas com a voz) e a cantoria de viola.

CORDÉIS MUSICADOS

O repente se insere na tradição literária nordestina do cordel,de histórias contadas em caudalosos versos e publicadas em pequenos folhetos,que são vendidos nas feiras por seus próprios autores. Uma tradição que, por sinal,inspirou clássicos da literatura brasileira, como o "Auto da Compadecida",de Ariano Suassuna,e "Morte e Vida Severina",de João Cabral de Melo Neto.

O repente foi para o Sudeste em meados do século XX,junto com a migração de nordestinos para as grandes capitais. Chegou a São Paulo em 1946 com o alagoano "Guriatã de Coqueiro" (Augusto Pereira da Silva) e,no Rio,instalou-se na Feira de São Cristóvão.

O gênero se imiscuiu na MPB,sendo usado em trabalhos de artistas tão diversos quanto o cantador Elomar,o roqueiro Raul Seixas e o cantor paraibano Zé Ramalho. Subterraneamente,o repente tradicional,de violeiros-cantadores em duelo,sobreviveu graças a nomes como Oliveira das Panelas (vencedor, em 1997, do 1º Campeonato Brasileiro de Poetas Repentistas),Mocinha da Passira,Valdir Teles,Lourinaldo Vitorino,Sebastião da Silva,Azulão,Miguel Bezerra,Otacílio Batista,Ivanildo Vila Nova,Zé Cândido,Ismael Pereira e Natan Soares.