sábado, 14 de janeiro de 2012

REMEMÓRIA

A NOSTALGIA DO POETA ANTÔNIO JOSÉ DE LIRA
O escritor e jornalista recifense,Urariano Mota,comparou os versos "A velha olaria",do Sr. Lira (ou Santos),sensível poeta de Itapetim,à grandeza expressiva e universalmente saudosa do romancista inglês Charles Dickens em "As Grandes Esperanças",quando o protagonista volta ao casarão arruinado onde conhecera o seu amor de infância.

No dia 15 de outubro de 2007,Mota enviou a seguinte mensagem para Rolando Boldrin:

"Prezado Rolando Boldrin

(...) No momento organizo,com mais três outros escritores,uma Antologia dos Poetas do Pajeú. O Pajeú é uma área do Sertão de Pernambuco,berço de inúmeros poetas,cantadores e repentistas.

Aconselhado,envio-lhe o poema a seguir. Sem dúvida,você é a pessoa certa,pelas qualidades de ator e conhecedor da gente brasileira. Passo-lhe os breves dados do poeta e o poema."

Eis as décimas "A velha olaria":

Recordei o juazeiro
Sombra da velha olaria
Gigante,verde e faceiro
Enquanto o dono existia
Depois que o dono morreu
Ele também resolveu
Se entregar ao machado
Hoje nenhum mais existe
Vou recordar mas é triste
Se recordar o passado

O tempo ingrato passou
A mão naquela olaria
Por lembrança não ficou
Nada do que nela havia
Aterrou todo o barreiro
Sem forno e sem juazeiro
Ficou o chão diferente
Até mesmo o passarinho
Perdeu o lugar do ninho
Canta mas não é contente

Das telhas restam os cacos
Porque não se derreteram
Do juazeiro os cavacos
Todos desapareceram
Se existe alguma raiz
Talvez se sinta infeliz
Porque perdeu sua fronde
A lenha o fogo queimou
As folhas o vento levou
Pra guardar quem sabe aonde

Senti profunda emoção
Naquele ermo esquisito
Sem pai,sem mãe,sem jargão
Sentindo a falta do mito
Se dividiu a família
Três hoje moram em Brasília
E três em Itapetim
Quatro na eternidade
Resta somente a saudade
Morando dentro de mim

Voltei pra ver se do forno
Alguma coisa restava
Pelo menos o chão morno
Da lenha que pai queimava
Não vi cinzas nem carvão
Senti profunda emoção
Saí sem olhar pra trás
Notei que tudo tem fim
Jurei por Deus e por mim
Não ir ali nunca mais.

NOTAS:

1. O poeta Antônio José de Lira (Antônio dos Santos),é filho de José Amâncio Pereira e Maria José de Lira,nasceu no sítio Goiana,Itapetim,em 08 de julho de 1930. Casado com dona Floriza Braga da Silva,com quem teve nove filhos: Maria de Lourdes,Humberto,Alcides,Jucineide,Antônio Carlos,Wilson,Ivaldete,Edileuza e Iracema. Ele é irmão da poetisa Felismina Maria de Lira.

2. Urariano Mota é autor de "Soledad no Recife",recriação dos últimos dias de Soledad Barret,mulher do cabo Anselmo (José Anselmo dos Santos),executada pela equipe do delegado Fleury (Sérgio Fernando Paranhos Fleury) com o auxílio de Anselmo,em 1973.