quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

DÉCIMAS DE BIU JORDÃO

I

Vi cupim na forquilha da latada
Jitirana na cerca dos currais
Uns morcegos chiando nos frechais
Uma porta sem tranca escancarada
Uma cabra dormindo na calçada
Um mourão da porteira declinado
O oitão do poente esburacado
Indicando que ali não mora gente
Mia um gato deitado no batente
De um casebre que foi abandonado

II

Duas tábuas se restam na porteira
Um mourão estragado do cupim
Na panela do pé de alecrim
Não se encontra mais uma banda inteira
Um selote,um pedaço de perneira
Um facão,sem o cabo,enferrujado
O seu dono morreu,foi sepultado
Nunca mais vem aqui cantar pra gente
Mia um gato deitado no batente
De um casebre que foi abandonado

III

Na dispensa daquele casarão
Um morcego dormindo pendurado
Os gabirus correndo no telhado
Pareciam com uma assombração
Uma cama de couro sem colchão
Um baú sem a tampa já quebrado
Um vaqueiro aboiando improvisado,
Um fantasma assombrando o ambiente
Mia o gato deitado no batente
De um casebre que foi abandonado

IV

Uma coruja é sua sentinela
Se abusa da sua solidão
Voa e volta pedindo explicação
E posa lenta nas traves da cancela
Maribondo arranchando na janela
Um cão magro,doente e enfadado
Eu de medo fiquei arrepiado,
Me sentei na calçada do nascente
Mia um gato deitado no batente
De um casebre que foi abandonado

V

Vi um pé de algaroba no terreiro
Um jumento na sombra cochilando
Com certeza,seu dono procurando
Ao redor do casebre o dia inteiro
Uma canga na cerca do chiqueiro
Sem badalo um chocalho pendurado
Um arado já velho,enferrujado
Já faltando a metade da corrente
Mia um gato deitado no batente
De um casebre que foi abandonado

VI

Este gato sem ter o que comer
Ele vive a vagar no abandono
No batente se deita e dorme um sono
Esperando pro dia amanhecer
Sem ter carne,sem leite pra beber
Ele fica a miar desesperado
Em um pé de um cachilho já rachado
Se ampara a réstea do sol quente
Mia um gato deitado no batente
De um casebre que foi abandonado

VII

Eu vi pouco,porque estava escuro
Vi um vulto de mim se aproximando
Vi um vento bem forte balançando
Um molambo engachado no monturo
Como a vida da gente é sem futuro...
Como o tempo da gente é esgotado...
Para a gente morrer e ser julgado
É preciso ser muito paciente
Mia um gato deitado no batente
De um casebre que foi abandonado

Severino Alves Rangel é filho de Jordão de Fonte Rangel e Maria Alves do Carmo,nasceu no sítio Lagoa do Agostinho,Itapetim,em 19 de fevereiro de 1938.

Casou-se por dua vezes: em primeira núpcias,com Geraldina Ferreira Rangel,com quem teve um filho: Gilvan. Depois de enviuvar,casou-se com Maria Luzinete Gomes,com quem teve Gilvanete e Givanilson.

Em 2005,gravou um CD intitulado "Eu e minha viola",no qual se encontra o poema publicado.